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espaço de
ideias e reflexões

ARTIGO DA SEMANA - P. SIVAL SOARES

RE-ALFABETIZAÇÃO ESPIRITUAL

O ser humano é um ser de linguagem. Por isso, diferencia-se dos demais animais: na medida em que exprime o que sente – o que pensa, o que faz e o que lhe incomoda, através de gestos, palavras, escritas ou silêncios – mostra-se um ser consciente. A consciência de ser consciente do que se passa diferencia o ser humano dos demais seres vivos que, embora sintam, eventualmente pensem ou edifiquem coisas complexas como as abelhas ao fazerem o mel, tal consciência não ocorre ser ativa e consciente de si no mundo animal. Além disso, a capacidade de linguagem humana deu-lhe também a possibilidade de interpretar. O homem/mulher não é só um ser que fala ou escreve, cala ou gesticula. É um ser que interpreta, ou seja, vê o que acontece e, a partir de sua capacidade racional, tira dos acontecimentos as lições que lhes parecem comunicar algo. Somos homens e mulheres de linguagem, de interpretação e, por isso, seres capazes de educação. Aos animais, adestram-se; aos humanos, educam-se.


Por ocasião da Quaresma de 2026, o Sr. Patriarca de Lisboa, dom Rui Valério, dirigiu uma mensagem a todos os fiéis, exortando-os à boa vivência deste tempo litúrgico. Entretanto, alerta, num dos pontos da sua mensagem, para o analfabetismo espiritual que se vive nos tempos hodiernos. Trata-se da “perda da linguagem da interioridade, da escuta e da consciência diante de Deus. Quando deixamos de saber ler o coração, também deixamos de saber ler a vida. Este empobrecimento interior torna-nos particularmente permeáveis às tentações”. Para ilustrar bem tal analfabetismo, elencamos três sintomas do nosso tempo que exemplificam essa perda da linguagem da interioridade. E para não padecermos na doença do pessimismo, mostramos quatro atitudes que nos ajudam a saber ler o coração e a vida, a fim de nos re-alfabetizarmos na dimensão espiritual. 


O primeiro sintoma deste analfabetismo espiritual do nosso tempo é o excesso de barulho e a incapacidade de escutar. Cada vez mais se oferecem cursos de oratória, de línguas estrangeiras para se poder melhor comunicar, de marketing para pessoas e empresas anunciarem os seus negócios e habilidades. Cada vez mais ouvem-se músicas altas, fala-se quase aos gritos (mesmo nas salas de aulas e nos lares das famílias), aumentam-se a frequência de alardes nos anúncios de redes sociais sobre os acontecimentos – porque quase não se lê notícias em jornais ou se assistem em telejornais… O barulho toma conta do exterior para evitar qualquer escuta interior. 


O segundo sintoma que decorre do primeiro é a ausência compreensão sobre o pouco que se conhece. Conhecer não é compreender. Pode-se conhecer uma rua sem nunca passar por ela ou saber quem nela habita. Entretanto, compreender algo significa o que esta palavra mesmo indica (preender=tomar e com=junto), um tomar para si em conjunto. Compreender algo é tornar aquilo que se sabe parte de si. Essa falta de compreensão das coisas dificulta a clareza do falar e faz surfir uma certa deficiência no interpretar. Já quase nenhum jovem filho da era tecnológica consegue compreender os “sinais dos tempos” no seu tempo. Porque não aprendeu a compreender as coisas. Conhece muito e compreende pouco; fala demais e escuta de menos.


O terceiro sintoma desse analfabetismo espiritual consiste no indiferentismo em relação aos valores da vida. Matar, morrer, roubar, apropriar-se dos sentimentos alheios, das palavras errantes, plagiar, violar pessoas com inverdades e com atos violentos – tudo isso está a ser banalizado, normalizado. O certo parece perder-se nas ondas dos erros. Tal indiferentismo aos valores também tangencia Deus. Se o ser humano pode tudo, de que serve um Deus que pede algo ao mesmo ser humano? A vida, no indiferentismo dos valores, perde o seu valor, degrada-se na lama das corrupções do corpo e da alma e o ser humano, perdido neste labirinto, morre cada vez mais sem saber o porquê, como ou de quê. Isso resulta numa falta de significado para a existência. Se não se sabe porque viver, de que adianta se precaver?


Estes três sintomas parecem não ter muita relação com a religiosidade de uma pessoa. Aparentemente podem ser vistos como algo genérico e aplicável a qualquer dimensão da vida. Entretanto, quando se lê estes sintomas à luz da fé, nota-se o excesso de barulho como resultado da falta de escuta de Deus; a ausência de compreensão produz a ignorância que, aplicada à dimensão religiosa, consiste no maior dos pecados – o risco de assumir a mentira, cuja paternidade é atribuída ao diabo, como forma de verdade; e o indiferentismo frente aos valores desemboca num distanciamento do divino (a isso santo Agostinho dá o nome de pecado). Estas três variantes religiosas dos sintomas mostram-nos precisamente a necessidade de uma profunda conversão à qual o tempo quaresmal nos convoca: escutar a voz de Deus no deserto da vida; reaprender o caminho que nos converte ao amor; superar o pecado da indiferença com a empatia própria dos ensinamentos e das obras dos que aderem a Cristo.


Quanto à primeira atitude, escutar a voz de Deus, o papa Leão, em sua mensagem por ocasião da Quaresma deste ano, lembra que “a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro”. Escutar a voz de Deus expressa em sua Palavra para dar ouvidos à voz do irmão que nos quer falar. Reaprender a ouvir, no curso de escutatória que é a Quaresma, exige silêncio interior, capacidade de acolher o que Deus e a realidade nos fala como formas de compromisso. Escutar para mudar. Escutar para transformar. Escutar para converter. A escuta, no tempo quaresmal, afasta o barulho exterior para dar lugar a um acolhimento interior capaz de nos fazer viver escutando, mesmo num mundo barulhento. A mudança parte do sujeito, contagia as pessoas e pode transformar o mundo. Porém, no princípio esta a escuta. 


A segunda atitude é educacional. É preciso re-alfabetizar o nosso coração, resgatando as palavras da fé, o vocabulário espiritual, para que nos apropriemos de termos que possam exprimir a Verdade de Deus e do ser humano. Palavras como sacrifício, santidade, vigilância, renúncia, amor oblativo, empatia e compaixão, são valores fundamentais para reeducar o nosso interior, permitir que nos apropriemos desses termos e, realmente, compreendamos o que cremos. Não se trata de informar sobre a existência do vocabulário da fé. No cristianismo, a Palavra faz-se carne. O dizer coincide com o fazer. O falar é um viver. Por isso, a compreensão das palavras indica a vivência de valores. Reaprender as palavras, vivendo-as, é uma forma de testemunho, de martýrion (martírio). Morrer para viver. A semente lançada na terra, morre para render fruto – este é o chamamento cristão à santidade. Todo santo rende frutos e morre para permanecer vivo, como vela que se consome na medida em que ilumina.


A terceira atitude resulta num esforço constante de não ser indiferente, de imprimir em nossos corações a carne de Cristo para que não fiquemos ou não nos sintamos à parte de cada pessoa que sofre. Santo Astério de Amaseia, bispo no século V da era cristã, dizia que ser cristão “é uma proclamação de caridade”, por isso, pedia: “imitai o amor de Cristo”. Só o amor vence a indiferença. É ele que permite a compaixão, esta atitude de se colocar no lugar do outro, enxugar-lhe as lágrimas, retê-lo no colo, oferecer o ombro amigo ou, como o samaritano bondoso, curar-lhe as feridas. A caridade, uma das dimensões do tempo quaresmal, é a forma mais eficaz de superação da indiferença. No amor, ou se é presente em corpo e alma, ou se ama em palavras vazias. A cura para o indiferentismo aos valores e a Deus advém de gestos de amorosidade. Isso supõe um amor que é dirigido a Deus e expresso no cotidiano, em relação ao próximo.

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